Um barco, dois voluntários e uma coleção de 800 livros. O projeto Ler no Rio percorre comunidades sem escola e sem acesso à internet no interior do Amazonas, e já atendeu mais de 1.200 crianças.
O barco parte de Manaus às seis da manhã de uma sexta-feira. A bordo, além de combustível e mantimentos para cinco dias, há caixas de livros — infantis, juvenis, de poesia, de história em quadrinhos. Tudo embalado em plástico para proteger da umidade do rio.
O projeto Ler no Rio existe desde 2021 e é tocado por dois professores aposentados: Nair Figueiredo, 62 anos, e seu marido Antônio, 65. Eles vendem a casa de Manaus, compraram o barco com as economias de uma vida e decidiram, como Nair diz, "fazer alguma coisa que valesse a pena".
Em quatro anos, o projeto visitou 38 comunidades ribeirinhas ao longo dos rios Solimões, Juruá e Purus. Algumas têm escola, mas sem professor fixo. Outras não têm escola nenhuma. Todas têm crianças que nunca tinham visto uma biblioteca.
O barco fica ancorado em cada comunidade por dois a três dias. Durante esse tempo, Nair e Antônio organizam sessões de leitura em voz alta, emprestam livros para as crianças levarem para casa e ensinam adultos que querem aprender a ler.
Os livros não são doados — são emprestados. Na próxima visita, as crianças devolvem e pegam outros. "A gente queria criar o hábito de ler, não só dar um presente", explica Nair. "Quando você empresta, a criança sabe que vai ter mais. Quando você doa, às vezes o livro some."
"Tem menino que ficou esperando a gente voltar por seis meses. Quando o barco aparece, eles correm para a beira do rio." — Nair Figueiredo
O projeto sobrevive de doações e de uma campanha de financiamento coletivo que arrecada cerca de R$ 4 mil por mês — o suficiente para cobrir combustível, manutenção do barco e reposição de livros. Nair e Antônio não tiram salário.
Em 2024, o projeto recebeu o Prêmio Itaú-Unicef de Educação e Participação, o que trouxe visibilidade e novas doações. Com o dinheiro, compraram um segundo barco menor para acessar igarapés onde o barco principal não consegue entrar.
O casal não tem planos de parar. "A gente vai enquanto o corpo aguentar", diz Antônio. "E depois a gente torce para que alguém continue."