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O último mestre de bumba-meu-boi do Maranhão que ainda faz as fantasias à mão

Seu Raimundo Brito, 76 anos, é um dos últimos artesãos que domina a arte completa do bumba-meu-boi tradicional — da confecção das fantasias ao ensaio dos brincantes. Ele teme que a tradição morra com ele.

Por Cláudia Monteiro · 30 de junho de 2025

No quintal da casa de Seu Raimundo, em São Luís do Maranhão, há penas de ema, fios de seda, miçangas coloridas e pedaços de couro curtido espalhados sobre uma mesa comprida. É ali, nesse espaço que mistura oficina e altar, que ele passa a maior parte do ano preparando as fantasias para o bumba-meu-boi do Grupo Brilho do Norte.

Raimundo Brito aprendeu o ofício com o pai, que aprendeu com o avô. A cadeia de transmissão tem mais de cem anos e está, pela primeira vez, em risco de se romper. Dos seis filhos de Seu Raimundo, nenhum quis aprender. "Eles dizem que dá muito trabalho e não dá dinheiro. E eles têm razão nos dois", ele diz, sem amargura.

Uma arte que exige o corpo inteiro

O bumba-meu-boi maranhense é patrimônio imaterial da humanidade reconhecido pela Unesco desde 2019. Mas o reconhecimento internacional não se traduz em sustento para os mestres. Seu Raimundo recebe uma bolsa do governo estadual de R$ 800 mensais como "mestre da cultura popular" — valor que ele complementa com pequenos trabalhos de reparos em fantasias de outros grupos.

A confecção de uma fantasia completa de bumba-meu-boi pode levar semanas. Cada peça é bordada à mão, com padrões que variam de acordo com o sotaque — o estilo específico de cada grupo. O Brilho do Norte pertence ao sotaque de matraca, caracterizado pelo uso intenso de percussão e fantasias mais elaboradas.

"Cada pena tem um lugar. Cada cor tem um significado. Você não pode só copiar — tem que entender por que está fazendo assim." — Raimundo Brito

A busca por um sucessor

Há dois anos, Seu Raimundo abriu um ateliê informal para jovens do bairro. Dos doze que começaram, três continuam. "São bons meninos. Aprendem rápido. Mas eu não sei se vão ficar quando eu não puder mais ensinar."

A Secretaria de Cultura do Maranhão está desenvolvendo um projeto de documentação audiovisual do trabalho de Seu Raimundo, com apoio do Iphan. Serão registrados em vídeo todos os processos de confecção das fantasias, os cantos e as histórias que ele carrega.

É um começo. Mas Seu Raimundo sabe que vídeo não substitui mão. "Você pode ver mil vezes como se faz um nó de pena. Mas só aprende quando faz."

CM
Cláudia Monteiro
Repórter de Cultura Popular
Cláudia cobre manifestações culturais populares, patrimônio imaterial e comunidades artísticas tradicionais. Nascida no Maranhão, escreve para o Que Surpreende Brasil desde 2022.