Por três anos, a comunidade quilombola de Lagoa dos Patos enfrentou pressão de fazendeiros, ameaças e processos judiciais. Esta é a história de como resistiram — e o que isso custou.
A primeira notificação chegou numa tarde de março de 2022. Um oficial de justiça parou o carro na beira da estrada de terra e entregou um envelope para Seu Benedito, 71 anos, o mais velho da comunidade quilombola de Lagoa dos Patos, no município de Uruçuí, no Piauí. O documento dizia que as famílias tinham 30 dias para desocupar as terras onde viviam há mais de cem anos.
"A gente não entendeu nada. Chamamos um advogado da cidade, mas ele cobrou caro demais. Ficamos sem saber o que fazer", lembra Benedito, sentado na varanda da casa onde nasceu e criou seis filhos.
O que se seguiu foi uma batalha jurídica, política e humana que durou três anos e envolveu organizações de direitos humanos, o Ministério Público Federal e, por fim, o próprio Supremo Tribunal Federal. No final, as famílias ficaram. Mas o preço foi alto.
Lagoa dos Patos é uma comunidade de 47 famílias — cerca de 200 pessoas — que vive em terras reconhecidas como quilombolas pela Fundação Cultural Palmares desde 2018. O território de 3.200 hectares é cercado por fazendas de soja que avançaram sobre o cerrado piauiense nas últimas duas décadas.
O processo de reintegração de posse foi movido por um grupo de fazendeiros que contestavam a demarcação das terras quilombolas. Eles alegavam que a área incluía propriedades com títulos registrados em cartório — o que, segundo o advogado das famílias, era tecnicamente verdadeiro, mas juridicamente inválido diante do direito constitucional das comunidades quilombolas.
"A gente planta aqui, cria os filhos aqui, enterra os mortos aqui. Isso não tem papel que desfaz." — Maria das Graças, 58 anos, moradora de Lagoa dos Patos
A comunidade encontrou apoio onde menos esperava. Uma professora universitária de Teresina que pesquisava comunidades quilombolas do Piauí entrou em contato com o Conselho Indigenista Missionário, que por sua vez conectou as famílias com uma rede de advogados especializados em direito agrário.
A batalha jurídica foi longa e cara. Para financiar os custos, as famílias organizaram feiras de produtos artesanais e receberam doações de pessoas que souberam da história pelas redes sociais. Uma campanha de financiamento coletivo arrecadou R$ 87 mil em três semanas.
Em outubro de 2024, o STF confirmou a validade da demarcação e determinou que os processos de reintegração de posse fossem extintos. A decisão foi celebrada com festa na comunidade — mas Seu Benedito diz que a alegria veio misturada com cansaço.
Três famílias deixaram a comunidade durante o período de maior pressão. Alguns jovens foram para Teresina em busca de emprego e não voltaram. A escola comunitária, que funcionava num barracão de madeira, foi incendiada em 2023 — crime que permanece sem solução.
Hoje, a comunidade está reconstruindo. Uma nova escola está sendo construída com recursos do governo estadual. O plantio de mandioca, milho e feijão retomou o ritmo. E Seu Benedito ainda acorda cedo para cuidar das cabras.